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Meu filho está no Ensino Médio: como saber se ele precisa de um psicólogo?

Seu filho entrou no Ensino Médio e alguma coisa parece ter mudado.

Talvez ele esteja mais fechado. Irrita-se quando vocês perguntam sobre a escola. Passa mais tempo no quarto. Dorme tarde, acorda cansado, reclama que não consegue estudar como deveria. Em outros momentos, parece perfeitamente bem: sai com os amigos, ri, conversa, entrega os trabalhos e continua tirando boas notas.

Então surge uma dúvida difícil para muitos pais:

isso é próprio da adolescência ou está acontecendo alguma coisa que merece ajuda profissional?

Não existe uma resposta baseada em um único comportamento.

A adolescência envolve mudanças importantes na maneira como o jovem pensa sobre si, sobre os pais, sobre os amigos e sobre o futuro. O desejo por privacidade aumenta. A opinião dos pares ganha outro peso. Os conflitos familiares podem se tornar mais frequentes. As escolhas começam a parecer mais consequentes. E, no ensino médio, tudo isso costuma acontecer justamente quando o estudante encontra uma cobrança acadêmica maior e começa a ouvir perguntas sobre vestibular, faculdade e profissão.

Por isso, nem toda irritabilidade é sinal de um transtorno. Nem toda queda em uma prova significa que há um problema emocional. Nem querer ficar sozinho algumas vezes significa depressão.

A pergunta mais útil costuma ser outra:

quanto o que está acontecendo começou a modificar a vida que esse adolescente conseguia viver?


Mais importante do que um comportamento isolado é perceber mudanças

Quando conhecemos alguém há quinze ou dezesseis anos, temos uma vantagem que nenhum checklist encontrado na internet possui: conhecemos, ainda que parcialmente, o jeito daquela pessoa existir.

Um adolescente que sempre foi reservado não deve ser avaliado da mesma maneira que alguém que conversava bastante, encontrava os amigos e, de repente, passou a se afastar de todos.

Da mesma forma, um estudante que ocasionalmente fica ansioso antes de uma prova vive algo muito diferente daquele que passa vários dias antecipando o fracasso, dorme mal, tem crises antes das avaliações e começa a evitar situações acadêmicas.

O que merece atenção é frequentemente uma combinação entre mudança em relação ao funcionamento habitual, intensidade, persistência e prejuízo na vida cotidiana.

A escola pode ser uma parte disso, mas não é a única.

Vale observar como estão o sono, as relações familiares, as amizades, o interesse pelas atividades de que gostava, a capacidade de descansar, a alimentação, a disposição, a autoestima e a maneira como o adolescente fala sobre si e sobre o futuro.

Às vezes, o boletim muda antes que os pais percebam o sofrimento.

Em outras situações, acontece justamente o contrário.


Um adolescente pode estar sofrendo e continuar tirando boas notas

Esse é um ponto particularmente importante para famílias de estudantes de escolas academicamente exigentes.

Há adolescentes que continuam funcionando muito bem enquanto estão emocionalmente sobrecarregados.

Estudam muito, cumprem prazos, participam das atividades, mantêm notas elevadas e parecem responsáveis. Por isso, ninguém percebe imediatamente quanto esforço psicológico está sendo necessário para sustentar aquele desempenho.

O sofrimento pode aparecer de outras maneiras: noites mal dormidas, medo excessivo de errar, irritabilidade, crises de choro, sensação permanente de insuficiência, dificuldade de descansar sem culpa, comparação constante com os colegas ou uma autocobrança que transforma qualquer resultado abaixo do esperado em uma espécie de fracasso pessoal.

Nesses casos, dizer que “está tudo bem porque as notas continuam boas” pode esconder uma parte importante da experiência.

Bom desempenho escolar e saúde mental não são sinônimos.

A revisão sistemática de Steare e colaboradores, publicada no Journal of Affective Disorders, analisou 52 estudos sobre pressão acadêmica e saúde mental de crianças e adolescentes em idade escolar. Em 48 deles houve associação entre pressão acadêmica e pelo menos um desfecho relacionado à saúde mental, como sintomas ansiosos ou depressivos. Os próprios autores alertam que boa parte dos estudos era transversal e, portanto, não permite concluir simplesmente que a pressão escolar causa esses problemas. Ainda assim, o conjunto das pesquisas mostra que a experiência acadêmica merece ser considerada seriamente quando pensamos no bem-estar dos adolescentes. (ScienceDirect)

Isso se torna especialmente relevante no ensino médio, quando medo de fracassar, volume de tarefas, expectativas familiares, comparação entre colegas, ENEM, vestibulares e decisões sobre carreira começam a ocupar um espaço maior.


Quando a cobrança deixa de ajudar

A maioria dos pais não cobra porque deseja fazer mal ao filho.

Geralmente acontece o contrário.

Há investimento, preocupação, expectativas e uma consciência real de que algumas escolhas feitas nessa fase podem abrir ou fechar oportunidades.

O problema aparece quando toda conversa sobre o futuro começa a ser vivida pelo adolescente como uma avaliação do próprio valor.

A nota deixa de ser uma nota.

Passa a responder silenciosamente perguntas muito maiores:

“Sou inteligente?”

“Vou decepcionar meus pais?”

“Vou conseguir entrar naquela faculdade?”

“Todo mundo está avançando e eu estou ficando para trás?”

“E se eu não for tão bom quanto pensavam?”

“Quem eu vou ser se isso não der certo?”

É aí que o mundo escolar encontra algo muito maior do que o conteúdo das provas: a construção da identidade.

O adolescente está começando a responder quem é justamente em uma época em que recebe números, rankings, resultados, aprovações e reprovações capazes de parecer respostas bastante convincentes.

A psicoterapia não deveria existir para fazê-lo suportar qualquer quantidade de pressão nem para transformá-lo em um estudante mais eficiente.

Pode, porém, ajudá-lo a desenvolver recursos para lidar com ansiedade, frustração, expectativas, relações, escolhas e emoções sem precisar fazer do desempenho acadêmico a medida inteira de quem ele é.


Então quais mudanças merecem atenção?

Não existe um comportamento que, isoladamente, responda à pergunta.

Mas vale considerar uma avaliação psicológica quando diferentes mudanças começam a aparecer de maneira persistente: isolamento crescente; perda de interesse por atividades anteriormente importantes; alterações importantes no sono ou alimentação; irritabilidade muito diferente do habitual; crises recorrentes de ansiedade; medo intenso de avaliações ou situações sociais; queda significativa no rendimento; dificuldade persistente para frequentar a escola; procrastinação acompanhada de intenso sofrimento; autocobrança rígida; conflitos familiares que se tornaram praticamente permanentes; uso de álcool ou outras substâncias como forma de lidar com emoções; desesperança; falas frequentes de inutilidade ou fracasso; ou qualquer comportamento de autoagressão.

Nenhum desses elementos deve ser utilizado pelos pais para realizar um diagnóstico em casa.

Eles funcionam melhor como sinais de que vale compreender o que está acontecendo.

As diretrizes do NICE para depressão em crianças e adolescentes, por exemplo, recomendam que a avaliação não se limite a sintomas. Devem ser consideradas a história pessoal e social, as circunstâncias familiares, o nível de desenvolvimento, o contexto em que o jovem vive e outras condições que possam estar presentes. (Nice)

Essa perspectiva é importante porque dois adolescentes podem chegar ao consultório com a mesma queixa — “não consigo estudar” — e estar vivendo situações completamente diferentes.

Um pode estar ansioso.

Outro pode estar deprimido.

Outro pode ter dificuldades atencionais que nunca haviam sido percebidas.

Outro pode estar exausto.

Outro está atravessando problemas com amigos.

Outro simplesmente ainda não encontrou uma maneira adequada de organizar a própria rotina.

E há quem esteja reagindo a um ambiente cuja exigência se tornou maior do que os recursos disponíveis naquele momento.

O trabalho clínico começa justamente quando deixamos de tentar encaixar rapidamente o adolescente em uma explicação.


“Mas ele não conversa comigo”

Essa frase aparece frequentemente quando pais procuram atendimento psicológico para os filhos.

E ela pode carregar sentimentos difíceis.

Durante muitos anos, os pais foram as principais pessoas a quem aquela criança recorria. Na adolescência, uma parte desse lugar começa necessariamente a mudar.

Nem tudo será contado.

Amigos passam a conhecer acontecimentos que os pais não conhecem. Algumas experiências serão elaboradas primeiro fora da família. O jovem começa a construir uma vida interior que lhe pertence de maneira mais evidente.

Isso pode ser doloroso para os pais sem ser, por si só, um sinal de problema.

A questão muda quando o silêncio se transforma em isolamento generalizado ou quando o adolescente parece não conseguir conversar com ninguém sobre o que está vivendo.

Também é importante observar a maneira como tentamos fazê-lo falar.

Uma conversa que começa com “como você está?” pode rapidamente virar uma sequência de perguntas sobre nota, tarefa, horário, celular, vestibular e responsabilidades.

Depois de algum tempo, o adolescente aprende que conversar significa prestar contas.

E passa a evitar a conversa.

Reconstruir essa ponte não significa abandonar limites ou responsabilidades. Significa recuperar espaços nos quais a relação não esteja permanentemente organizada em torno da correção de alguma coisa.


Não é necessário esperar tudo ficar grave

Há uma crença ainda bastante comum de que psicoterapia é algo que deve começar somente quando existe um diagnóstico ou quando a situação chegou a um limite.

Não precisa ser assim.

Procurar um psicólogo pode fazer sentido quando a família percebe um sofrimento persistente, quando alguma área importante da vida começou a ser prejudicada ou quando o próprio adolescente percebe que não está conseguindo lidar sozinho com determinada experiência.

A intervenção mais precoce pode ser especialmente importante quando aparecem quadros depressivos. O NICE destaca que depressão em jovens pode afetar escola, amizades e participação social e que reconhecimento e tratamento adequados são importantes para evitar a continuidade das dificuldades. (Nice)

Existem, entretanto, situações que não devem esperar por uma consulta de rotina. Falas sobre querer morrer, intenção suicida, comportamentos de autoagressão, risco grave, abandono importante do autocuidado ou mudanças muito intensas no funcionamento exigem avaliação rápida e adequada. Diretrizes internacionais colocam risco recorrente de autoagressão ou suicídio entre os critérios para encaminhamento a serviços de maior intensidade de cuidado. (Nice)


E se meu filho não quiser fazer terapia?

Forçar um adolescente a comparecer fisicamente a uma sala é possível em algumas circunstâncias.

Forçá-lo a participar psicologicamente do processo é outra história.

Por isso, a maneira como a proposta é apresentada importa.

“Você está impossível e precisa de psicólogo” produz um significado muito diferente de:

“Estamos percebendo que algumas coisas parecem estar pesadas para você. Talvez fosse bom ter um lugar seu para conversar e entender melhor o que está acontecendo.”

O psicólogo não deve ocupar o papel de aliado dos pais contra o adolescente, de fiscal do comportamento ou de intermediário encarregado de convencer o jovem a estudar.

Quando o adolescente percebe que existe ali um espaço genuinamente interessado em sua experiência,e não apenas mais um adulto tentando ajustá-lo, a relação terapêutica pode começar a ganhar outra possibilidade.


O psicólogo vai contar aos pais tudo o que o adolescente disser?

Essa é uma preocupação dos dois lados.

Os pais podem pensar: “Se sou eu quem trouxe meu filho, como vou saber o que está acontecendo?”

O adolescente pode pensar exatamente o contrário: “Se meus pais estão pagando, tudo o que eu falar vai chegar até eles?”

No Brasil, o Código de Ética Profissional do Psicólogo protege o sigilo e determina, especificamente no atendimento de crianças e adolescentes, que seja comunicado aos responsáveis o estritamente essencial para promover medidas em benefício do jovem. Para o atendimento psicológico não eventual de adolescentes menores de idade, é necessária autorização de ao menos um responsável legal. (Conselho Federal de Psicologia)

Na prática clínica, isso significa construir desde o início uma relação clara com a família e com o adolescente: explicar como funciona o sigilo, qual será a participação dos responsáveis e em quais circunstâncias determinadas informações precisarão ser compartilhadas para proteger o jovem.

Esse espaço de privacidade não serve para excluir os pais.

Ele ajuda a tornar possível uma relação terapêutica em que o adolescente possa efetivamente falar.


Afinal, como saber se chegou a hora?

Talvez os pais nunca tenham certeza absoluta antes da primeira conversa com um profissional.

E não precisam ter.

Procurar uma avaliação psicológica não equivale a afirmar que seu filho tem um transtorno.

Significa reconhecer que alguma coisa merece ser compreendida com mais cuidado.

Quando um adolescente começa a sofrer, nossa tendência adulta costuma ser procurar rapidamente a causa: o celular, os amigos, a escola, a falta de disciplina, o namoro, a ansiedade, o TDAH, a adolescência.

Às vezes encontramos uma resposta.

Em outras, descobrimos que havia muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

A clínica começa num lugar mais simples e, talvez, mais difícil:

antes de tentar consertar o adolescente, precisamos compreender a experiência que ele está tentando atravessar.


Psicoterapia para adolescentes em Niterói

Realizo acompanhamento psicológico de adolescentes, incluindo estudantes do ensino médio que enfrentam questões relacionadas à ansiedade, autocobrança, relações familiares e sociais, dificuldades escolares, escolhas profissionais, identidade e outros desafios próprios dessa etapa da vida.

Atendo adolescentes presencialmente em Niterói ou online, incluindo estudantes de colégios como o Instituto GayLussac, La Salle Abel, Colégio São Vicente de Paulo e outras escolas particulares da cidade. Também acompanho, na modalidade online, adolescentes que residem ou estudam no Rio de Janeiro, especialmente em regiões como Botafogo, Flamengo, Leblon, Ipanema, Gávea e Barra da Tijuca, incluindo alunos de instituições como o Colégio Santo Inácio, Colégio de São Bento, Colégio Santo Agostinho, Escola Parque, Eleva e The British School, entre outras. O atendimento é independente e não possui vínculo institucional com essas escolas.

Se você percebe mudanças importantes no seu filho e ainda não sabe se está diante de uma fase passageira ou de um sofrimento que merece maior atenção, a primeira consulta pode servir justamente para isso: compreender antes de concluir.


Referências

World Health Organization. Mental health of adolescents. Atualização de setembro de 2025.

Steare, T., Gutiérrez Muñoz, C., Sullivan, A., & Lewis, G. (2023). The association between academic pressure and adolescent mental health problems: A systematic review. Journal of Affective Disorders, 339, 302–317.

National Institute for Health and Care Excellence. Depression in children and young people: identification and management (NG134). NICE.

Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo.

Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro. Nota Técnica CRP05 nº 5/2025: Orientação para o Exercício Profissional da Psicologia com Crianças e Adolescentes.

 
 
 

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